Natureza resiliente
Apesar de pequenas, nascentes com grande diversidade de espécies, como a da avenida Rondon Pacheco, mostram a capacidade de a natureza resistir à ação humana, segundo o biólogo Kléber Del Claro.
“É algo bonito e triste de se ver: esses pequenos animais vivendo de forma tão precária em um ambiente que antes era naturalmente deles. A área, que originalmente era uma vereda, nunca deveria ter deixado de ser assim. Por isso, construir uma via nesse tipo de terreno acaba trazendo consequências, como os alagamentos que ocorrem todos os anos na Rondon Pacheco”, explicou o biólogo.
A presença de peixes também contribui para a resistência da natureza nesses locais.
Segundo o veterinário André Schlemper, essas espécies são bastante resistentes. Elas podem viver em água salobra, que é a mistura de água doce com a do mar, e também em ambientes poluídos ou com pouco oxigênio.
Na prática, são poucos os locais onde esses peixes não conseguem sobreviver.
“Uma característica que possuem diferente da maioria dos peixes é que, em vez de colocarem ovos, eles dão à luz aos filhotes já formados. Por isso, são classificados como peixes vivíparos, ou seja, não nascem de ovos”, explicou o veterinário.
De onde os peixes vieram?
Para entender a origem dos peixes do gênero Phalloceros, é preciso voltar ao passado.
Segundo o veterinário André Schlemper, as espécies encontradas nas nascentes da avenida Rondon Pacheco podem estar no local desde as décadas de 1960 e 1970. Na época, houve uma ampla distribuição desses peixes para o controle de mosquitos.
Já no início dos anos 2000, uma nova distribuição foi realizada com o mesmo objetivo.
“Hoje já se sabe que não são tão eficientes nessa função, pois se alimentam de muitas outras fontes além das larvas de mosquitos, e também por serem espécies invasoras ambientais muito impactantes, devido à sua altíssima velocidade de reprodução, o que faz com que compitam com espécies nativas de mesmo porte nos locais onde são introduzidas”, ressaltou André.
Outra hipótese é que os peixes tenham sido soltos por moradores. Isso porque são espécies comuns em aquários, usadas tanto como ornamentais quanto como alimento para peixes predadores.
Os peixes podem ser levados para casa?
Especialistas orientam que a população não leve esses peixes para casa. Apesar de não haver registro de doenças graves transmitidas apenas pelo contato, a recomendação é evitar o manuseio.
O consumo também não é indicado, assim como a colocação dos animais em aquários. Isso porque eles podem ter sido expostos a substâncias químicas e ainda carregar parasitas, o que pode contaminar outros peixes.
O g1 questionou a Prefeitura Municipal de Uberlândia sobre o conhecimento e possíveis medidas adotadas em relação a esses peixes e nascentes ao longo da avenida Rondon Pacheco. Segundo a Prefeitura, essas medidas são de responsabilidade da Unidade Regional de Gestão das Águas Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba (Igam).
Em contato com o Igam, o órgão respondeu que realiza medidas de preservação no local, porém não detalhou quais são elas e como são executadas.
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também foi procurado para comentar sobre, e informou que o cuidado das nascentes é de responsabilidade da Prefeitura.
Por: G1